
A Tirania da Resiliência: Por que paramos de dobrar e começamos a quebrar?
Diferente dos metais, o ser humano não volta ao seu estado original após grandes pressões. Nós somos transformados, marcados e, muitas vezes, deformados pelo peso que aceitamos carregar. Exigir resiliência constante é ignorar que a saúde mental exige o direito de não ser indestrutível.
Na física, a resiliência é uma propriedade admirável: é a capacidade de um material acumular energia quando submetido a estresse e, depois, retornar ao seu estado original sem deformação. Na gestão de pessoas, porém, transformamos essa definição em uma obrigação moral. O que era uma característica de metais e polímeros tornou-se o salvo-conduto para a manutenção de ambientes de trabalho exaustivos.
O problema é que nós não somos molas. Somos sujeitos.
E a insistência em “aguentar o impacto” tem um preço que as planilhas de produtividade não mostram, mas que os consultórios médicos já não conseguem mais esconder.
O elogio que silencia
Recentemente, em uma consulta com meu neurologista, chegamos a uma conclusão perturbadora: o excesso de resiliência adoece. Muitas vezes, quando ouvimos “como você é resiliente!”, deveríamos ouvir “obrigado por não reclamar enquanto o sistema te esmaga”.
O elogio à resiliência tornou-se a anestesia perfeita para o sintoma. Se você aguenta a carga, a organização não precisa rever o processo. Se você não quebra sob uma liderança tóxica, a cultura não precisa ser questionada.
A resiliência virou a ferramenta definitiva de deslocamento de culpa: se o ambiente adoece e você colapsa, a falha passa a ser da sua baixa resiliência, e não da toxicidade do entorno. É o triunfo da individualização do sofrimento sobre a responsabilidade coletiva.
A armadilha do “Estado Original”
A maior mentira da resiliência corporativa é a promessa de que voltaremos ao “estado original”. O ser humano que passa por uma sobrecarga crônica, por uma ambiguidade de papel ou por um luto organizacional nunca volta a ser o mesmo. Nós somos transformados pela pressão. Quando somos forçados a ser resilientes além da conta, não voltamos ao normal; nós nos deformamos subjetivamente.
Essa tentativa de “normalizar” o peso insuportável através da resiliência encontra uma crítica contundente na obra de Christophe Dejours. O criador da Psicodinâmica do Trabalho nos alerta para o conceito de “sofrimento ético”: aquele que surge quando o trabalhador è forçado a usar sua inteligência e sua resistência para viabilizar práticas que ferem seu senso de justiça e integridade.
Para Dejours, a saúde mental não é a ausência de conflito, mas a capacidade de transformar o sofrimento em ação criativa. Quando a organização exige resiliência pura e simples, ela está, na verdade, exigindo alienação. Ela pede que o sujeito renuncie à sua percepção da realidade para continuar operando uma engrenagem que adoece. Sob este olhar, a resiliência deixa de ser uma virtude e passa a ser uma forma de colaboração com o próprio dano.
Do Aço ao Rizoma
A entrada em vigor da NR-1, que passa a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos das empresas, marca um ponto de inflexão. Mas de nada servirá a norma se continuarmos a romantizar o indivíduo “inquebrável”. Ambientes que exigem resiliência constante são, por definição, ambientes que operam em estado de abuso.
Em vez de buscarmos a dureza do carvalho ou a elasticidade da mola, a verdadeira saúde nas organizações deveria se inspirar na lógica do rizoma. Ao contrário das raízes tradicionais que buscam um centro único e uma hierarquia rígida, o rizoma – como o bambu ou a grama – cresce em rede.
O que isso nos ensina sobre o cuidado?
- A Responsabilidade Distribuída: No rizoma, se uma parte da rede sofre uma pressão excessiva, as outras conexões redistribuem a carga. O cuidado não é um “departamento” ou um “benefício corporativo”, mas a própria fibra que une as pessoas. Cuidar, aqui, significa garantir que nenhum ponto da rede fique isolado no seu sofrimento.
- A Conexão que Sustenta: O oposto da resiliência solitária é a sustentação coletiva. Enquanto a resiliência diz “aguente firme”, o cuidado rizomático diz “nós sustentamos isso juntos”. É a passagem da “vulnerabilidade como fraqueza” para a “vulnerabilidade como ponto de conexão”.
- A Cura pela Escuta: Como Psicanalista e Coach, entendo que o cuidado se manifesta na escuta. Em uma estrutura rizomática, a liderança não é um topo que esmaga, mas um nó de articulação que escuta os sinais de alerta da rede antes que o fio se rompa.
Precisamos substituir a tirania da resiliência pela ética do cuidado – ou a mola pelo rizoma – aceitando que somos seres interdependentes.
Uma organização saudável não é aquela composta por “seres de aço” que absorvem qualquer impacto para proteger a meta, mas aquela que se comporta como um rizoma: conectada, sensível às pressões e capaz de mudar a própria estrutura para não permitir que nenhum de seus nós se rompa.
Saúde mental no trabalho não é sobre o quanto você aguenta. É sobre o direito de não precisar aguentar o insuportável. No final das contas, ambientes que curam não são feitos de pessoas inquebráveis, mas de pessoas que se permitem ser o suporte umas das outras.
Para mais informações ou se quiser contratar meus serviços, então entre em contato pelo e-mail belfranchon@gmail.com.
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Quer saber mais sobre como proteger a saúde mental no trabalho e substituir a tirania da resiliência por uma cultura de cuidado coletivo? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em conversar a respeito.
Isabel C Franchon
https://www.q3agencia.com.br
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