Se o Trauma Pode Ser Passado ao Longo de Gerações, Valores Também Podem!
Da herança do trauma à construção consciente de culturas de pertencimento, verdade e potência
A afirmação “Se o trauma pode ser passado ao longo de gerações, valores também podem”, dita por Wagner Moura em um momento simbólico de reconhecimento internacional, ecoa muito além do campo artístico. Ela toca uma questão central da condição humana, social e organizacional: a transmissão invisível de experiências, significados e padrões que moldam indivíduos, grupos e culturas ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo em que reconhece a profundidade do trauma como herança psíquica e cultural, a frase inaugura uma possibilidade ética poderosa: a de que valores conscientes possam interromper ciclos de dor e inaugurar novos legados.
A literatura psicológica, sociológica e antropológica é consistente ao demonstrar que o trauma não se encerra no evento que o originou. Ele tende a se perpetuar quando não encontra elaboração simbólica, narrativa e relacional.
Estudos sobre transmissão intergeracional do trauma, especialmente em contextos de violência coletiva, colonização, escravidão, guerras e desigualdade estrutural, evidenciam que experiências não simbolizadas reaparecem em forma de comportamentos, crenças limitantes, medos difusos, padrões de relação e estruturas de poder rígidas.
No campo clínico, Bessel van der Kolk demonstra que o trauma não vive apenas na memória narrativa, mas no corpo, nos sistemas de alerta e na forma como o sujeito percebe segurança e ameaça. Quando essas marcas não são, de fato, cuidadas, elas atravessam gerações como reatividade, silenciamento, desconfiança ou hiperadaptação.
No plano do desenvolvimento humano, a teoria do apego de John Bowlby e os estudos de Mary Ainsworth mostram como experiências precoces de cuidado ou negligência moldam modelos internos de relação que tendem a se repetir. Não herdamos apenas a história explícita, mas a forma como sentimos o mundo. Aquilo que não dizemos transforma-se em regra silenciosa. Aquilo que não cuidamos converte-se em padrão de sobrevivência.
No campo social, Pierre Bourdieu contribui ao demonstrar que estruturas de poder e dominação se reproduzem por meio do habitus. Trata-se de um sistema de disposições internalizadas que orienta percepções, ações e julgamentos, sem passar necessariamente pela consciência crítica.
Assim, traumas históricos e culturais — como machismo, racismo, elitismo e autoritarismo — tornam-se “normais”, transmitidos como se fossem naturais. O trauma cultural, nesse sentido, não é apenas psicológico, mas estrutural.
Entretanto, reconhecer a transmissão do trauma não implica aceitar sua perpetuação como destino.
É justamente nesse ponto que a frase de Wagner Moura ganha potência transformadora. Se o trauma se transmite por repetição, silêncio e ausência de elaboração, valores se transmitem por consciência, coerência e prática cotidiana. Valores não são discursos abstratos, mas escolhas reiteradas, formas de tratar pessoas, critérios de decisão e limites éticos sustentados mesmo sob pressão.
Essa compreensão está no centro do ALMA – Aceleradora de Liderança para Mulheres Autênticas, um programa que nasce justamente do reconhecimento de que muitas mulheres chegam aos espaços de liderança carregando não apenas desafios individuais, mas marcas de um trauma cultural coletivo. Mulheres formadas em ambientes que historicamente deslegitimaram sua voz, puniram sua assertividade, romantizaram sua sobrecarga e naturalizaram sua culpa. Esse trauma cultural se manifesta em padrões como fenômeno da impostora, medo de errar, dificuldade de se posicionar, excesso de autocrítica e silenciamento estratégico.
No ALMA, o trabalho não começa pela performance, mas pela reconstrução da relação da mulher consigo mesma e com o coletivo. O programa parte da premissa de que não há liderança sustentável sem pertencimento, e não há pertencimento sem verdade.
Criar uma cultura de pertencimento significa oferecer segurança psicológica, escuta legítima e reconhecimento da experiência vivida. Trata-se de interromper o ciclo em que mulheres precisam “se adaptar” a culturas adoecidas e, em vez disso, formar lideranças capazes de transformar a cultura.
Essa abordagem dialoga profundamente com Paulo Freire, para quem a conscientização é condição para a libertação. Não se transforma aquilo que não se nomeia. Ao dar linguagem ao trauma cultural, sem vitimização, mas com lucidez, o ALMA cria espaço para escolhas conscientes. As pessoas passam a eleger novos valores: verdade no lugar do silêncio, colaboração no lugar da competição predatória, potência no lugar da autonegação. Esses valores, quando vividos em grupo, deixam de ser apenas individuais e passam a compor uma memória coletiva transformadora.
No campo da ética e política, Hannah Arendt afirma que cada geração tem a responsabilidade de renovar o mundo. Essa renovação não acontece por ruptura violenta, mas resulta da escolha consciente de preservar o que tem valor e superar o que já não se sustenta.
No ALMA, isso se expressa na construção de lideranças que honram suas histórias sem ficarem aprisionadas a elas. Lideranças que reconhecem a dor herdada, mas escolhem não reproduzi-la. Que compreendem que potência não é endurecimento, mas integração.
Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento moral, Lawrence Kohlberg descreve a passagem de uma moral baseada na obediência para uma ética baseada em princípios. Essa transição é fundamental para culturas organizacionais e sociais. Ambientes que operam a partir do medo e da punição tendem a reproduzir trauma. Ambientes orientados por valores claros, vividos com coerência, produzem confiança, autonomia e responsabilidade compartilhada.
No ALMA, essa ética se traduz em lideranças que sabem dizer “não”, que estabelecem limites saudáveis e que compreendem que cuidar de si é também um ato político e organizacional.
Assim, a frase “se o trauma pode ser passado ao longo de gerações, valores também podem” deixa de ser apenas uma constatação e se torna um convite à ação consciente.
Ela nos lembra que não escolhemos tudo o que recebemos, mas somos responsáveis pelo que perpetuamos. Cada liderança, cada educador, cada gestor, cada mãe, cada pai, cada formador de cultura decide, diariamente, se será um elo de repetição ou um ponto de virada.
No ALMA, essa virada se materializa na construção de culturas de pertencimento, verdade e potência — culturas onde o trauma é reconhecido, mas não idolatrado; onde a história é honrada, mas não determinista; onde valores são vividos como prática, e não apenas proclamados como intenção. Porque, no fim, o que transforma uma geração não é a ausência de trauma, mas a presença de valores conscientes capazes de ressignificá-lo.
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Quer saber mais sobre como valores conscientes podem interromper ciclos de trauma e fortalecer lideranças autênticas? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em conversar sobre este tema.
Até a próxima!
Luciana Soares Passadori
https://www.passadori.com.br
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