fbpx

Saúde Mental no Trabalho: Quando o Sofrimento Deixa de Ser Individual e Passa a Ser Organizacional

Com a NR-1, a saúde mental no trabalho deixa de ser responsabilidade individual e passa a ser organizacional. Entenda o que são riscos psicossociais, por que ações cosméticas não resolvem e qual é o desafio ético, cultural e estrutural das empresas.

Saúde Mental no Trabalho: Quando o Sofrimento Deixa de Ser Individual e Passa a Ser Organizacional

Saúde Mental no Trabalho: Quando o Sofrimento Deixa de Ser Individual e Passa a Ser Organizacional

Durante anos, o sofrimento psíquico no trabalho foi tratado como problema individual: falta de resiliência, fragilidade emocional, dificuldade de adaptação. A NR-1 desloca esse olhar. Quando o adoecimento se repete, o problema não está apenas nas pessoas, mas na forma como o trabalho é organizado.

Vamos falar de fatos:

  • Mais de 470 mil licenças médicas por transtornos mentais concedidas pelo INSS em 2024 – as projeções para 2025 indicam que esses números mais que dobraram;
  • O uso de fármacos, entre lideranças, saltou de 18% em 2024 para 52% em 2025: foi maior ainda entre os trabalhadores que não ocupam cargos de liderança;
  • O Brasil é o país com maior taxa de ansiedade no mundo, e segundo em depressão;
  • Não é à toa que começamos o ano com Janeiro Branco, uma campanha nacional sobre saúde mental, que inclui o ambiente de trabalho.

A entrada em vigor das novas exigências da NR-1 – em maio de 2026 – que passam a incluir os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, marca um ponto de inflexão importante no debate sobre saúde mental no trabalho.


Pela primeira vez, de forma mais explícita, deixa-se de tratar o sofrimento psíquico apenas como um tema periférico, voluntário ou dependente da boa vontade das empresas, para se tornar parte das responsabilidades formais da organização do trabalho.

Mas esse avanço normativo traz também um risco silencioso: o de que a saúde mental seja novamente reduzida a procedimentos, checklists e ações cosméticas, enquanto as causas estruturais do sofrimento permanecem intocadas.

Durante décadas, as organizações se acostumaram a tratar o mal-estar psíquico como um problema do indivíduo. Virou moda falar de falta de resiliência, dificuldade de adaptação, fragilidade emocional, incapacidade de lidar com pressão. O discurso variou, mas o efeito era sempre o mesmo: deslocar para o trabalhador a responsabilidade por suportar condições de trabalho cada vez mais exigentes, ambíguas e desumanizadas.

A lógica era simples – e cruel. Se alguém adoecia, algo estava errado com essa pessoa. Raramente se perguntava o que estava errado com o sistema.

A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 confronta diretamente essa narrativa. Ela obriga as empresas a reconhecerem que o sofrimento não nasce apenas de histórias pessoais ou vulnerabilidades individuais, mas também – e muitas vezes principalmente – da forma como o trabalho é, de fato, organizado, gerido e vivido no cotidiano.


Riscos psicossociais não são conceitos abstratos.

Eles se manifestam em metas inalcançáveis, sobrecarga crônica, jornadas extensas, insegurança permanente, comunicação ambígua, lideranças despreparadas, culturas de medo, assédio normalizado, falta de reconhecimento e contradições profundas entre o discurso institucional e a prática diária.

São riscos que não aparecem em máquinas ou equipamentos, mas que se inscrevem no corpo, na mente e na subjetividade de quem trabalha.

Quando esses fatores se acumulam, o sofrimento deixa de ser apenas um episódio e passa a se tornar estrutural. Não é mais um problema pontual, mas um modo de funcionamento. E, nesse contexto, falar de saúde mental sem falar de cultura organizacional, liderança e organização do trabalho é insuficiente – quando não enganoso.


O desafio que a NR-1 coloca não é apenas técnico ou jurídico. É ético e político.

Cumprir a norma não deve se transformar apenas em evitar sanções, mas assumir a responsabilidade pelo impacto real que o trabalho exerce sobre a vida das pessoas.

Isso exige mais do que programas isolados de bem-estar ou ações pontuais de sensibilização. Exige revisão de práticas, coerência entre discurso e decisão, formação de lideranças e, sobretudo, disposição para escutar o que há tempos vem sendo silenciado.

Saúde mental no trabalho não se constrói com cartilhas prontas nem com soluções rápidas. Muito menos com palestras motivacionais.

Ela se constrói quando a organização reconhece que o trabalho é, antes de tudo, um espaço de vida e – que ambientes que adoecem sistematicamente não podem continuar sendo tratados como normais.

A entrada em vigor da NR-1 pode ser apenas mais uma exigência burocrática a ser cumprida. Ou pode ser o início de uma mudança mais profunda: a passagem de uma cultura que individualiza o sofrimento para outra que assume, de forma consciente, a responsabilidade por não produzir adoecimento como método de gestão.

Essa escolha não está na norma. Está nas decisões que cada organização faz todos os dias.

Para mais informações ou se quiser contratar meus serviços, então entre em contato pelo e-mail belfranchon@gmail.com.


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como a saúde mental no trabalho se torna uma responsabilidade organizacional e o que a NR-1 exige das empresas na prática? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em conversar a respeito.

Isabel C Franchon
https://www.q3agencia.com.br

Confira também: Quando o Trabalho Adoece: O Que Um Único Episódio Revela Sobre as Dores Silenciosas

Palavras-chave: saúde mental no trabalho, saúde mental no ambiente de trabalho, riscos psicossociais, NR-1, cultura organizacional, adoecimento no trabalho, saúde mental como responsabilidade organizacional, riscos psicossociais no ambiente de trabalho, impactos da NR-1 na saúde mental, adoecimento psíquico nas organizações, quando o sofrimento no trabalho se torna estrutural
Isabel C Franchon, Coach, Trainer e Consultora em Cultura Organizacional, atua com Desenvolvimento Profissional e Pessoal através de palestras, Workshops, Treinamentos, Coaching, Mentoring e Oficinas. É Psicanalista atuante. Graduada em Jornalismo, tem MBA em Desenvolvimento Humano de Gestores, pela FGV; Pós-graduação em Transdisciplinaridade em Saúde, Educação e Liderança, pela Universidade Holística Internacional; Especialização em Marketing pela MM School; Formação em Compliance Anticorrupção, pela LEC; Especialização em Metodologia QEMP para empreendedores, pela Clinton Education. Fez formação em Master, Executive, Leader & Business Coach, pelo Behavioral Institute. Certificada em Positive Coaching Com Robert Dilts e Richard Moss. É membro do International Coaching Council (ICC) desde 2008. Formação em Psicanálise pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), Coautora do livro O Poder Transformador do Grupo com o capítulo “Coaching em Grupo: Holístico, Sistêmico, Integral” (Edições Besouro Box, 2024). Membro do GEC – Grupo de Excelência em Coaching – Centro de Conhecimento do CRA-SP.
follow me
Neste artigo


Participe da Conversa